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TRIBUTOS

Tributo a Mauro Salles

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Aqui, nossa homenagem a Mauro Salles, sócio-fundador do MG Club do Brasil, por meio de uma mensagem de Paulo César Sandler para o amigo Mogar, em um texto que traça um perfil da faceta de Mauro – publicitário, advogado e jornalista, versátil e ativíssimo homem de comunicação – no mundo dos carros.  

Clique nas imagens para ampliar - fotos do acervo do MG Club do Brasil

Mogar, depois de dar o nome para o Interlagos, Mauro nomeou o Corcel, e o Versailles. Que triste. Mais um amigo que vai descansar. Tive a maravilhosa oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em 1966 - nessa época, tinha 16 anos, e o conhecimento, para minha enorme surpresa, foi por iniciativa dele, que era, sob meus olhos de adolescente fascinado, uma pessoa importantíssima, não apenas por ter sido ministro de estado, mas, de modo principal, por ter sido o iniciador dos testes de estrada de carros brasileiros, na revista Mecânica Popular! E de fazer reportagens que eram reportagens de um cronista de verdade, não de um repetidor de notícias dos fabricantes, tantas vezes pago por eles. Um ídolo, que trazia um modo de redigir típico dos jornalistas norte-americanos e europeus, que davam ao leitor uma ideia viva dos carros. Um dia, enviou-me pelo correio um pôster que sua recém-fundada agência de propaganda fez para a Willys, onde posou no monoposto “de fórmula”, como se dizia na época, cercado dos nossos grandes pilotos, Bird, Luiz Pereira Bueno, não vou citar os outros, todos vocês sabem quem são.

 

Mauro Salles, a pessoa mais benevolente que tinha conhecido naquele meio, escreveu no verso do anúncio: “para o mais jovem jornalista automobilístico do Brasil, do seu leitor de todos os domingos”. Caramba! Uma pessoa importante e ativa como ele, perdia seu tempo para ler as coisinhas que eu escrevia! Depois arranjou uma visita com todos os “esses” e “erres”, incluindo carona em uma Rural da fábrica e uma pequena entrevista com William Max Pearce – amigo de sua família, as famílias Salles e Pearce são amigas até hoje – evitando que eu fosse com a Kombi da Folha, que bem tinha o banco do meio (eram também usadas para distribuir o jornal nas bancas).

 

Fiquei sem poder vê-lo mais, abandonei a pretensão de ser jornalista, para terminar o curso de medicina e iniciar a profissão que exige um bocado de dedicação como todos sabem; a última vez que o avistei nessa época foi no Salão de 1967. Em 1985, Mauro, dono da maior e melhor agência de propaganda do país, editor de um jornal em inglês publicado no Brasil – outra dentre de suas muitas inovações arrojadas – faz nova surpresa.

 

Fiz um anúncio classificado (3 cm) na publicação “Antigomobilismo Magazine”, do Malcolm Forest, o inventor do nome antigomobilismo. Essa pequena publicação marcou minha volta para redigir artigos sobre história do automóvel. E marcou meu reencontro acidental com o Mauro Salles. O micro anúncio era de uma Bugatti Atlantic, escala 1:43, a primeira que apareceu no mercado. Havia errado, pois comprei duas unidades em uma viagem para Londres e achei melhor me desfazer de uma. Haveria algum interessado? Não conhecia ninguém no meio, depois de umas “férias” forçadas por necessidades profissionais de fazer uma carreira em outra atividade.

 

No telefone, um Mauro me perguntou de modo objetivo e muito educado: “Aqui é o Mauro. A miniatura é de um Bugatti, mesmo? Tem certeza? Já vendeu?”. Não, respondi, feliz porque alguém me procurou. “Ah, posso ir até aí? Onde você fica?”. Falei vamos precisar marcar hora, fico atendendo pacientes e…Ele não titubeou: “Pode falar o dia e o horário. Trabalho aí perto”. Dois dias depois vou abrir a porta do sobradinho onde era meu consultório, pego o interfone, “Aqui é o Mauro. Vamos fazer o negócio”. Abri a porta e o reconheci na hora, e ele, obviamente, não me reconheceu. Subimos e aí me lembro de ter falado, vermelho de vergonha, depois de dar o carrinho para ele e falarmos maravilhas do Bugatti e das “miniaturas modernas” que faziam carros antes impossíveis de conseguir. “Poxa, o senhor só falou Mauro, acho que o senhor é o Mauro Salles!”

 

“Sim, mas meu nome é Mauro. Sem essa de senhor.” Contei a história, ele pensou um pouco, lembrou da minha coluna na “Folhinha de São Paulo” e se desculpou, “olha não me recordo de sua pessoa, me desculpe, mas lembro do que você escrevia. Acho que você deve ter mudado…” Bom, dos 17 até 35 anos, a gente muda… ele me pareceu idêntico, e sempre via fotos dele. O que não era recíproco, pois nunca fui conhecido ou famoso. Insistiu que desejava pagar, não aceitava presente desse jeito, etc. e aí falei para ele que tinha o pôster da Willys. Ele se iluminou. “Nossa, eu não tenho mais nenhum, queria ter, você me empresta?, esse foi o primeiro pôster da minha agência! Mando copiar e te devolvo. Insisti de novo: fique com ele, com o original, é seu, fui apenas o curador durante esse tempo. Ele aceitou…

 

Há outras histórias, de outros encontros, até 2010; por exemplo, ele não tinha mais nenhum dos testes e reportagens que fez para a revista Mecânica Popular, e agradeceu pelas cópias que fiz das revistas que eu tinha, e tenho até hoje. As cópias foram em fotografia, de filme. O xerox da época era meio ruinzinho… como disse o Mogar, Mauro era um homem “modesto”, não ficava “botando banca” apesar de todo o enorme conhecimento e conexões e principalmente capacidade pessoal e “stamina”, como dizem os ingleses, que tinha; do “material” de enorme qualidade que era feito. Um dia soube que eu era membro da Sociedade de Psicanálise, com funções de didata (um tipo de professor, como na universidade) e ficou todo animado, dizendo que sua esposa e cunhada estavam querendo ser analistas. Alguns anos depois, foram minhas alunas…

 

Em 2010 chegou a oportunidade de mostrar gratidão. Mauro teve um grave problema de saúde, que enfrentou com a mesma galhardia e coragem de sempre. Fui visitá-lo no apartamento, graças à gentileza da esposa; e levei minha homenagem: o livro sobre o Karmann-Ghia, com várias menções a ele, fotos da Mecânica Popular, dos testes. Mauro foi o primeiro a apresentar um pequeno teste, em um “furo” de reportagem, avisando ao público que o mais belo carro da VW ia ser fabricado por aqui! Ninguém sabia, foi pura intuição, depois de “sondar” os diretores em conversas sociais! No mundo escuro e infinito de um AVC que derrubaria quase todo mundo, Mauro continuou o mesmo educado e gentil batalhador poeta entusiasmado. Emocionou-se ao ver o livro e conversamos um bocado sobre praticamente tudo.

Mauro Salles foi único. Descanse em paz, a última década foi dura para com ele.

 

Paulo César Sandler

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